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Belchior - Balada de madame
Quinta-Feira, 01.05.2008, 06:34pm (GMT-3)

Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que comprei veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia...
Dei bandeira!
E ao pôr fé nessa deusa gorda da tecnologia, gelei de pura emoção.

Ora! Desde muito adolescente me arrepio ante empregada debutante.
Uma elétrica doméstica, então... Que sex-appeal! Dá-me um frio na barriga!
Essa deusa da fertilidade, ready-made à la Duchamp, ja passou de minha amante!
Virou superstar, a mulher ideal, mais que mãe, mais que a outra... Puta amiga!

Mister Andy, o papa pop,
E outro amigo meu, xarope,
Se cansaram de dizer:
"Pra que Deus, Dinheiro, Sexo,
Ideal, Pátria, Família,
Se alguém já tem Frigidaire?"
É Freud, rapaziada
Vir a cair na cantada
De um objeto mulher.

1.º - Eu me consumo, Madame.
      E a classe média que mame
      Se o céu a prazo se der!

2.º - Mas que trocadilho infame!
      La vraie "Ballade des Dames Du Temps Jadis"... ao contraire!

Que brancor no abre-e-fecha sensual dessa Nossa Senhora Asséptica!
Com ela saio e traio a televisao, rainha minha e de vocês!
Dona Frigidaire me come. But "No kids, double income!" Filho compromete a estética!
Como Édipo-Rei Momo, como e tomo tudo dela... Deleites da frigidez.

Inventores de Madame Frigidaire, peço bis! Muito obrigado.
Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do País.
E um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado.
Queira Deus que em fim da orgia, já de cabecinha fria, não leve um doce gelado!